Reforma Luterana

LUTERO 499

     499 anos  nos separam do início de um movimento que culminou com a Reforma da Igreja cristã. Tendo em Martinho Lutero o seu líder, teve como herança o serem chamados luteranos os que o seguiam e reconheceram a sua legitimidade, ao fundar a sua luta na Palavra de Deus. Mas do que se tratou afinal o movimento que se chamou de Reforma? Porque é que ele aconteceu?

Diz-se muita coisa a respeito. Lutero queria protagonismo! Lutero queria casar! Ou ainda, que ele gostava de discussões e por se desentender com a cúpula da Igreja, por teimosia levou avante a sua ideia.

     No entanto quando se lê Lutero, quando se ouve o porque de sua luta, percebe-se que o que realmente importava àquele Padre Agostiniano, professor das Sagradas Escrituras na Universidade de Wittenberg, Alemanha, era o que estava escrito na Palavra de Deus, e que ele começara a descobrir em seus estudos. Comparando com a vida da Igreja, por parte dos seus, e pela pregação que ouvia, havia algo de muito errado no que se passava. Propunha então a volta a Bíblia. Aqui Lutero “teimava”.

     Diante dos muitos ensinamentos da Igreja ele colocava a pergunta: Mas onde se encontra escrito isto? Nas Escrituras? Nem sempre estava! Muitas vezes não estava! As vezes nada tinha de Escrituristico. E a Igreja ensinava, doutrinava, festejava, sem a Palavra. Perseguia quem questionava, matava quem ousava procurar respostas válidas e validadas pela Escritura.

     Lutero como Padre, cura d´almas, pregador e professor reconhece a invenção humana naquilo que deveria ser a palavra divina. Muitas ordenanças inventadas para ocupar os crentes. Romarias, procissões, peregrinações, flagelações, missas aos santos, aos mortos, obras para adquirir direitos celestiais, e compra de indulgência para perdão. Mas ainda havia mais.

     Afinal a Igreja que devia guardar, ensinar e ser a fiel depositária da Sagrada Escritura, era ela que a desprezava e deturpava com ensinamentos de homens prepotentes, vaidosos e maus, que usavam da Igreja para seu benefício próprio, na luta por bens terrenos, em contradição ao amor de Deus e ao próximo.

     Lutero encontrou na Escritura o amor de Deus revelado e dado aos homens em Jesus Cristo, através do qual Deus oferece aos homens por sua Graça o perdão e a salvação eterna. “O Justo viverá por fé”!

     Era esta a mensagem que a Igreja devia anunciar. Lutero não podia calar. Ele tinha que anunciar e dizer: “Só a Graça, Só a Fé, Só a Escritura. ”Este é o tema, o assunto, a pregação da Igreja. Anunciar a Cristo o Salvador do mundo. Quando isso não acontece a Igreja erra o alvo. Pois aquilo que não conduz a Cristo, desvia Dêle.

     Somos herdeiros desta riqueza que nos é concedida pelo Evangelho pela graça de Deus que conserva entre nós os que permanecem fiéis a Ele, como o foram nossos pais e antepassados e como foi Lutero como instrumento de Deus para trazer e manter na Luz o Evangelho de Cristo!

 

Lutero e a Liberdade Cristã.

     O caminho que leva a vida cristã, a justiça e a liberdade não é feito de meditações ou de especulações, mas unicamente pelo Evangelho de Jesus Cristo.       Qual é esse Evangelho? A mensagem do Filho de Deus, que se encarnou, sofreu, morreu, ressuscitou e foi glorificado. O ministério de Cristo foi o ministério da palavra. Esse é também o ministério dos bispos e sacerdotes. A mensagem de Cristo só pode ser recebida na fé, e, por isso, é a fé que justifica, é ela que traz a salvação e não a obra externa. A Lei faz exigências, provocando, assim, o reconhecimento do pecado; Cristo, porém, promete, e, onde sua palavra é crida, une os cristãos com ele. Isso as obras não conseguem. A fé na Palavra da promessa rende glória a Deus. A essa fé Deus atribui a justiça. A justificação vem somente do Evangelho.

     Segundo o exemplo de Cristo, o crente serve em liberdade servil, tornando-se “como um Cristo” para o próximo. No servir a fé cumpre toda a justiça terrena. O cristão não tem sua  existência em si mesmo, mas na fé em Cristo e no amor ao próximo. É dessa maneira que ele vive em comunhão com Deus.

     Uma só coisa é preciso para a vida, a justiça e a liberdade cristã, e somente esta: é o sacrossanto Verbo de Deus, o Evangelho de Cristo. Jo.11.25; Jo.8.36; Mt.4.4.  A Palavra é rica, de nada mais carecendo, visto ser a palavra da vida, verdade, luz, justiça, salvação, alegria, liberdade, sabedoria, virtude, graça, glória e de todo o bem em medida inestimável.  Não há  praga mais cruel da ira de Deus do que quando ele envia fome de ouvir sua Palavra, conforma Amós, 8.11ss., como também não existe maior graça do que quando envia a sua Palavra, conforma o Salmo 107.20: “Enviou  sua palavra, e os sarou, e os livrou da sua perdição.”

     Por isso a primeira  preocupação de qualquer cristão deve ser esta: uma vez posta de lado a ilusão das obras, fortalecer mais e mais somente a fé, e crescer por meio dela no conhecimento, não de obras, mas de Cristo Jesus que por ele sofreu e ressuscitou, como ensina Pedro, 1Pe.5.10., pois nenhuma outra obra é capaz de fazer um cristão, e conforme diz o próprio Cristo em Jo.6.29,27, “ Esta é  a obra de Deus: que creiais naquele a quem ele enviou, pois é a este que Deus o Pai o marcou com seu selo.”

     Porque Deus Pai depositou tudo na fé, para que quem tem a esta, tenha tudo; quem não a tem, não tenha nada. Assim as promessas de Deus dão de presente o que os preceitos exigem, e cumprem o que a lei ordena, para que tudo seja exclusivamente de Deus, tanto os preceitos quanto o seu cumprimento. Só ele dá preceitos, só ele os cumpre; por isso  as promessas de Deus fazem parte do Novo Testamento, melhor, são o Novo Testamento.

     Assim a alma, quando crê com firmeza no Deus promitente, o tem em conta de veraz e justo, e não se pode atribuir a Deus nada mais honroso do que este conceito. Este é o culto supremo a Deus: atribuir-lhe a verdade, justiça e tudo que se deve tributar àquele em que se crê…. Porque apegada as suas promessas, não duvida que ele, o verdadeiro, justo e sábio, fará, disporá e providenciará tudo da melhor maneira. Que plenitude é mais completa do que a obediência em tudo? A esta, porém, não a produzem as obras, mas somente a fé. Que rebelião, que impiedade, que ofensa contra Deus é maior do que não crer no Promitente?

     Pois sua justiça é superior ao pecado de todos, sua vida é mais potente do que qualquer morte, sua salvação invencível demais a todo o inferno.

     Pois não é obrando que glorificamos a Deus e o confessamos veraz, mas crendo. Por isso somente a fé é a justiça da pessoa cristã e cumprimento de todos os mandamentos. Pois quem cumpre o primeiro, cumpre com facilidade todos os demais. De sorte que é doutrina obscura e perigosa aquela que ensina que os mandamentos são cumpridos pelas obras, visto que a lei tem que estar cumprida antes de todas as obras, e as obras seguem o cumprimento, como ouviremos.

     Pois crê que  a justiça de Cristo é sua, e que o pecado já não é seu, mas de Cristo. Na justiça de Deus em Cristo, o pecado está totalmente vencido, que é, como dizer, perdoado!

     É uma  enorme insensatez e ignorância da vida e fé cristã querer ser justificado e salvar-se sem a fé, pelas obras.

     Assim, quem quer obrar coisas boas, não comece pelo obrar, mas pelo crer, o que faz  boa a pessoa. Porque só a fé faz a pessoa boa, e só a incredulidade a faz má.

     Os que, porém, não reconhecem o que lhes é dado através de Cristo, para estes Cristo nasceu em vão, estes vivem pelas obras, sem jamais chegar ao gosto e à perceção daquelas coisas. Assim como nosso próximo tem necessidade e precisa de nossa abundância, da mesma maneira também nós temos necessidade perante Deus e precisamos de sua misericórdia. Por isso, tal qual o Pai celeste nos auxiliou gratuitamente em Cristo, devemos também nós auxiliar o nosso próximo gratuitamente pelo corpo e suas obras, e cada qual tornar-se para o outro como que um Cristo, para que sejamos Cristos um para o outro, e o próprio Cristo esteja em todos, isso é, para que sejamos verdadeiros cristãos.

     Pois pela fé em Cristo não somos livres das obras mas do falso conceito das obras, isso é, da estulta presunção de uma justificação conseguida pelas obras.

     Assim, o que  fazemos, vivemos, somos nas obras e cerimônias, isso o faz a necessidade desta vida e o cuidado pelo governo do corpo; ainda assim não somos justos nestas coisas, mas na fé no Filho de Deus.

© 2016 por Igreja Evangélica Luterana Portuguesa

  • Facebook - White Circle
  • Google+ - White Circle
  • Facebook - White Circle